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quinta-feira

Meditações

  • 1/1/1999 - A imunidade decresce com o stress. Não por acção directa do stress mas porque o stress absorve do organismo os oligoelementos - zinco, cobre, magnésio, fósforo, selénio - que são fundamentais para as defesas orgânicas. (Afonso Cautela)

1/2/1999 - Provavelmente, progride-se mais no combate à doença se, em vez de atribuir tudo ao vírus ou à bactéria, se pensasse um pouco mais em termo de terreno orgânico.
E se, em vez de dividir e classificar as doenças em infecto-contagiosas e as que o não são, preferíssemos, por exemplo, considerar algumas dessas alegadamente infecto-contagiosas , as «doenças do comportamento» ou «estilo de vida», já que considerá-las iatrogénicas ou doenças da medicina ainda é tabu.
É o caso da chamada sida que, sendo claramente uma doença do comportamento, nada se progredirá o seu combate medicamentoso, continuando a pisar os trilhos do vírus, do infecto-contagioso e da transmissibilidade.
É o caso das doenças auto-imunes. É o caso do lupus e da candidíase. É o caso das alergias. É o caso das hepatites. Etc.
Em medicina, todos os exclusivos levam à catástrofe, além de não serem nada científicos como constantemente os detentores desta estranha ciência se arrogam. (Afonso Cautela)
  • Uma doença é uma obra alquímica ao negro não seguida de transmutação, quer dizer, uma iniciação falhada. - Jacqueline Bousquet, biologista.
  • É a própria vida que o hemisfério cerebral direito sente, mede e identifica, reconhece. Trata-se, com efeito, de medir planos frequenciais diferentes, porque tudo o que vive, vibra; há continuidade vibratória no nosso universo, não o vazio. Somente gamas e harmónicas diferentes. O hemisfério cerebral esquerdo parece funcionar ao nível das frequências em relação com uma certa densidade de matérias (a qual é apenas campos frequenciais complexos, partículas elementares em movimento) enquanto o hemisfério cerebral direito parece capaz de identificar os sistemas de organização complexos da matéria, os movimentos e inter-relações dos planos de medida do hemisfério cerebral esquerdo. - Guy Londechamp, in «Symphonie du Vivant»

  • O cancro, no Planeta Terra, deve ter exactamente a Idade da Queda: 41 mil anos.
    Com a Queda perdeu-se o conhecimento alquímico da Vida e, portanto, surgiu a energia (do Cancro) da anti-pedra filosofal.
    Só pela Alquimia , pelo renovo do conhecimento alquímico e da Cura Iniciática, se pode voltar à Era antes da Queda, ou seja, à 1ª Idade de Ouro.
    Que não quererá significar Paraíso mas apenas uma terra sem Cancro.
    Entra Alquimia , sai Cancro. Sai a Alquimia, entra o Cancro.

    A diferença entre a vida (qualquer ser vivo) e um automóvel, é que o ser vivo é um fim em si mesmo e o automóvel não (Afonso Cautela).

quarta-feira

PARACELSO DESCONHECIDO

[«Livros na Mão», «A Capital», 11-9-1990] [24/8/1990] - A reabilitação póstuma de Paracelso, que teve o seu auge ao longo de todo o século XIX, assenta afinal em bem pouca coisa, a julgar por uma leitura retrospectiva das suas obras: um punhado de intuições fulgurantes, aquém e para além do tempo, é talvez o que resta de uma obra que, em vida do autor ( 1493-1521), foi sistematicamente vilipendiada pelos invejosos da época, inclusive pelos mais dilectos discípulos como esse misterioso Oparinus, canalha que assume o recorte refinado do clássico traidor. Como se para cada Jesus tivesse sempre que haver um Judas. E a verdade é que, em certos aspectos, Paracelso até nem era nenhum santo.

Resta dele, hoje, portanto, a lenda que se vai formando quando são grandes as lacunas na vida e na obra de um autor: Paracelso é também o mito que dele fizeram as dezenas de obras sobre a sua personalidade controversa, surgidas pró e contra, nos mais diversos países da Europa, durante o século XIX.

Entre as intuições que se podem citar a título de exemplo, que nele assinalam um «contemporâneo do futuro» e que dele fazem um profeta só tardiamente reconhecido como tal, é de sublinhar a que escreveu sobre a predestinação, na qual desenvolve uma ardilosa «teoria do castigo divino como causa das enfermidades», teoria que coincide, em muitos pontos, com a lei cármica das cosmogonias orientais (hindu, tibetana, chinesa) mas que no Ocidente, quer pela via greco-latina, quer pela via judaico-cristã, foi sempre letra morta.

Esta «teoria do castigo divino» é claramente desenvolvida por Paracelso em uma das raras obras suas que não se perderam, o «Tratado da entidade de Deus» , aparecido no «Quinto Livro, não pagão, acerca das entidades morbosas» incluído no segundo «Paramirum» (o primeiro foi um dos muitos livros seus que se perderam).

A reabilitação em força de Paracelso, poderá dever-se, portanto, ao facto de ele ter, numa cultura analfabeta e sórdida, introduzido alguns conceitos que, sendo lugares-comuns na sabedoria universal, sempre se ignoraram numa cultura como a ocidental, caracterizada pelo puro analfabetismo e pela mais dessorada e arrogante das ignorâncias.

TRADUZIR PARACELSO

Traduzir para a língua portuguesa, em 1990, o «Livro das Ninfas, Silfos, Pigmeus e Salamandras e de Outros Espíritos» deveria entender-se, portanto, como um primeiro contributo para o conhecimento do desconhecido Paracelso. Só que não é. Tratando-se da parte «morta» de um autor que tem, no entanto, muita coisa ainda viva para mostrar(as tais intuições acima referidas), esta tradução deverá funcionar apenas com objectivos de erudição, como actualização para os estudantes e estudiosos de artes e letras. Fica, entretanto, por conhecer o precursor de algumas banalidades de base que tanta falta continuam fazendo na cultura ocidental.

A tradução de Paracelso, agora empreendida, funciona assim no âmbito estritamente universitário, com o objectivo de rever matéria dada e fornecer fontes bibliográficas fidedignas pouco acessíveis aos alunos de Letras, eruditos, investigadores e especialistas, necessitados de quem lhes facilite e tarefa.

Neste contexto, o livro de Paracelso agora editado em língua portuguesa pela Cooperativa de Serviços Culturais « A Páginas Tantas», com um estudo minucioso de Teolinda Gersão, onde principalmente se assinala o papel de Paracelso no posterior surto romântico que assolaria a Europa, como um solene aviso das fontes a que era urgente recorrer, poderá dizer-se que vem preencher uma lacuna na cultura escolar do ensino superior em Portugal. Mas a sua actualidade é nula. Nada, nesta narrativa meio filosófica, meio fantástica, tem hoje qualquer funcionalidade, deixando portanto ao leitor comum uma imagem distorcida do Paracelso essencial, do Paracelso (ainda) vivo.

Aliás, Teolinda Gersão, no cuidadoso estudo que lhe dedica, faz notar neste «Livro das Ninfas» a linguagem «monótona e pouco clara, enredando-se num estilo pleonástico ou sinonímico, em que o pensamento avança devagar».Eu até diria que não avança mesmo e a sensação, ao lê-lo, é de que não saímos do mesmo sítio. Para dar uma ideia do que em Paracelso houve de efectivamente precursor e profético, do que ainda nele é vivo a actual e actuante, seria necessária uma recolha antológica selectiva, em função do futuro que Paracelso efectivamente antecipou em muitos aspectos e não em função de um passado irremediavelmente morto que outros dos seus escritos acusam, como é o caso destas ninfas.

Aliás, nunca seria pelo estilo que Paracelso desempenharia algum papel na literatura europeia, nem mesmo como um catalisador da explosão romântica. Se houvesse uma história das grandes intuições que faltam à humanidade ou um itinerário das chamadas grandes aventuras espirituais, era lá que se poderia meter Paracelso.

Contemporâneo de alguns outros mitos, muito bem tratados, por motivos ideológicos ou outros semelhantes, pela erudição oficial - Erasmo, Ambrósio Pareo, Lutero, Copérnico, Miguel Ângelo - é inegável que Aureolus Filippus Teofrasto Bombasto de Hohenheim, a começar no nome que seu pai, o médico Hohenheim, se lembraria de lhe dar, não tem nada que o recomende.

Como se explica então o mito Paracelso?

Talvez a resposta esteja, não no «Livro das Ninfas», divertimento a que ele se consagrou certamente para desviar as atenções dos inimigos, mas na biografia de Paracelso que ainda não foi contada e de que o odioso Oporinus pode ser a chave alquímica. Há filósofos que permanecem malditos, mesmo depois de (aparentemente e superficialmente) reabilitados. Mas, como acontece com Paracelso, quanto mais malditos mais fascinantes. Não vão é dizer isso aos alunos da Faculdade de Letras, coitados, que têm de passar nos exames e com boas notas. Cuidado, Paracelso. Cuidado com o Paracelso.



(*) «Livro das Ninfas, Silfos, Pigmeus e Salamandras e de Outros Espíritos» , Paracelso, com apresentação de Teolinda Gersão, Ed. «A Páginas Tantas», Cooperativa de Serviços Culturais. Equipa de tradução: Ana Paula de Carvalho Cunha, Helena Hipólito, Ana Maria Bernardo, Ana Paula Valagão Luz Clara e Helena Paula de Monteiro Leitão

(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na revista «Beija-Flor», provavelmente na data indicada e republicado em «Livros na Mão», «A Capital», 11-9-1990

terça-feira

Ecologia em Diálogo

A EQUIPA DE EDGAR MORIN E OS SÁBIOS DE RABO NA BOCA (*)

[(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, acho que ficou inédito, mas espanta-me que, em 1973, há trinta anos, já tivesse esta lata de chamar nomes aos senhores cientistas. ]


21-1-1973 - Sem perder o carácter de proliferação cancerígena que caracteriza o Sistema, as doenças do Sistema, os mitos, vícios, manias e alibis do Sistema, as " ciências humanas " estão a produzir uma explosão bibliográfica, como lhe chamava a revista " Psychologie”, no seu número de Dezembro último, sempre atenta aos vagidos do moribundo.

De facto, é impossível controlar esta crescente proliferação de " ciências humanas ". Quando não se pode convencer o estudioso pela razão, esmaga-se com toneladas de " exaustiva bibliografia ".

Centenas de títulos por mês, só em França ( pátria destas coissas cartesianas), dão a medida de outros tantos especialistas empenhados na beatífica tarefa de salvar o Sistema (deles), à custa de desvirtuarem todos os outros (múltiplos, variados) sistemas de mitos e valores que, através do tempo e do espaço, primeiro acintosamente devastaram, depois acintosamente fingiram ignorar e por fim decidiram atacar pela porta sempre aberta nas "ciências experimentais ", mais tarde ditas humanas. Assim se põe na mesa de anatomia o que lograra escapar à chacina ocidental ou à sua aviltação.

Outra característica da ditadura chamada Sistema - não menos evidente e moralizante que a outra, a carcinogénea - é a chamada " pescadinha de rabo na boca ".

Quer dizer: O Sistema analisa. Tem espasmos consecutivos de análise. Goza a analisar. Mas, para analisar, a condição sine qua non é matar o bicho que pretende autopsiar. Para isso, coloca-o na mesa operatória e, depois de bem morto, começa o piedoso trabalho de autópsia.

As ciências humanas, que tanto se ufanam do título, são pois e sempre ciências necrófilas. E, além de necrófilas, uma petição de principio por definição. Matam primeiro a vida que pretendem conhecer, estudar, analisar.

E quem diz matar diz deportar, corromper, desfigurar. Primeiro as "ciências humanas" desenham um mito, um molde, uma imagem puramente fictícia e fantasmagórica nascida das suas ensandecidas cabecinhas. Depois vá de censurar esse fantasma como se de realidade se tratasse e por não ser realidade.
E, depois, vá de classificar de utopia toda a proposta que, apesar das deformações sofridas, se apresenta evidentemente de qualidade superior às triviais e concorrentes propostas do Sistema único.
Dado que as "ciências humanas " têm, por objecto de estudo, que se debruçar sobre sistemas de valores que lhes são alheios e a que o Sistema é hostil, o truque das abençoadas "ciências humanas" é - quando surge um sistema, uma civilização, um módulo ou uma comunidade cultural de evidente qualidade e superioridade à das cidades-cloacas, à das sociedades concentracionárias, cognominá-la de "infame utopia". Querem assim ou assado?

ASTROLOGIA NUNCA EXISTIU

Exemplo faiscante de esperteza manifestada pelos sábios de rabo na boca, é o da astrologia.

Astrologia é coisa que, em verdade, nunca existiu fora dos cérebros escandecidos dos catalogadores profissionais. Dos que levam a vidinha a espetar a borboleta na secretária e a fichá-la, cujo negócio é traçar taxinomias de seu uso, gosto e gozo.

Vai daí, pegam na astrologia que inventaram e estrafegam-na à vista das populações que a consomem porque lha deram a consumir nesse estado, para que se lhes ensine o mestrado justiceiro. As "ciências humanas" nunca guardam para amanhã o auto de fé que podem fazer hoje. Há que restabelecer a ordem.

Racionalistas de um lado, homens de fé pelo outro, sabemos o que tem sido a história do fantástico e, por extensão, da heresia imaginativa frente aos poderes constituídos. Sabemos muito bem quantas vezes se crucificou, crucifica e crucificará Galileu, em nome de razão, em nome da fé, em nome do Negócio.

Le Nouvel Observateur, hebdomadário de muita razão, muita fé e muito negócio, entrega a observação do fenómeno "astrologia" a uma bem apetrechada equipa de malfeitores, chamados sociólogos.

O resultado saiu há pouco em edição portuguesa com o titulo O Retorno dos Astrólogos.

Alguém definiu a sociologia como a « pescadinha de rabo na boca ". Outros, não gostando do plebeísmo, preferem a metáfora mais nobre: "a sociologia é a víbora que morde a sua própria cauda".

De qualquer modo, a sociologia é sempre negócio de caudas, alimentando-se, assim e portanto, dos próprios dejectos.

Relativamente aos sociologistas de Le Nouvel Observateur não se pode afirmar, com segurança, dado o curto comprimento da cauda, se se trata de pescadinha, se de víbora.

Talvez um intermediário híbrido. O que se pode afirmar é que as dentadas acertam todas na canela do parceiro, da qual canela eles se abastecem com fervor e unção.

Mas deixemos a metáfora e falemos em linguagem científica: a astrologia é vista, por este grupo de observadores novos, de todos os ângulos incluindo o de cima para baixo, apenas para que fique demonstrada a tese adrede preparada e mantida; só os pobres de espírito se dedicam à astrologia.

Os ricos como Le Nouvel já não precisam. Cultivam outras astrologias mais puras e eruditas.

Isto claro sem falhanços, depois de se ter dado da astrologia a minuciosa e única imagem que a sociologia pode dar, e que é o puro, exacto, rigoroso reflexo da sua própria pobreza de espírito e dos seus mesmíssimos excrementos.

Quer dizer; reduzindo esta e outras técnicas iniciáticas ao capítulo redentor das "ciências ocultas" (outro fantasma que só existe nas cabecinhas sociológicas), analisando fenómenos que se começa por deformar, desfigurar, corromper, que falta afinal para desferir sobre o fantasma o golpe de misericórdia?

Produto da sociedade que o consome (outra vez a pescadinha de rabo na boca) o psiquismo que se ocupa de horóscopos - concluem triunfalmente os estrábicos observadores de Le Nouvel - ou é de massas, ou burguês, ou de raiz culta mas ... idealista.